quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Águas profundas


Olhos velados em mãos trêmulas.
Dualidade de corpos isolados,
De um lado o medo encarava
E do outro ele não podia ser aceito;
Dentro de cada peito um coração pulsava.

Bochechas tingidas de sangue
Os olhos eram meigos e assustados,
Corpo paralisado no êxtase
Pelos fantasmas de um passado.

Ele encarava a moça.
Sentidos aguçados ao desejo
Ao amor de um coração danificado.
Queria daqueles lábios um beijo
Que a moça havia recusado.

Quem é ela?
A mente de um corpo desejoso perguntava.
Um enigma tão transparente,
Um corpo afundado em água.
Afogava-se, o destemido que mergulhava.

Ele a observava da superfície
Por dentro um coração não revelado.
Distintos eram o corpo e a alma
Da moça pela qual ele se apaixonara,
Indevidamente, por fora d’água.

Eis que então ele mergulha.
E afundando a encontra,
Num abraço mudo ele a acalma
Águas profundas, agora rasas.

Por anos ele encarou aqueles olhos,
Até que numa libertação do abstrato
A moça lhe concedeu o beijo dócil.