domingo, 18 de setembro de 2011

Eu não me acostumo


   Eu disse muitas vezes que somos capazes de nos acostumar com tudo: Com a pouca comida, com o frio, o sono... Mas, quer saber de uma? Eu não me acostumo!
   Eu não me costumo com a falta de atenção, de caráter, de amor. Não me acostumo com os sorrisos, abraços e palavras falsas, enganosas. Nem tampouco com atitudes indóceis, secas e cheias de veneno. Eu não posso me permitir a acostumar-me com esse mundo desumano, inverso, desajustado.
   Eu sei que somos humanos e que erramos, mas já passamos disso. Já nos acomodamos no erro e assim já ficou mais fácil magoar, esquecer, fugir. Já ficou fácil ignorar, esquecer do real sentido da vida. Qual o sentido da vida? Encontro várias respostas para essa pergunta tão simples, e é justamente esse o problema, pois só existe uma resposta fiel para ela.
   Eu não me acostumo com as distorções de humanidade, com todo esse processo invertido. Onde foi parar a essência de sermos humanos? Não me acostumo com todos esses espelhos rachados que refletem uma imagem em pedaços, imagens do que somos, mas não deveríamos ser... E não deveríamos simplesmente porque nos deixamos levar pela leviandade que já parece tão normal.
   Eu não me acostumo com o dinheiro esmagando sentimentos. Também não me acostumo com falsos sentimentos. Eu não sou obrigada a aceitar a covardia defasadora de seres desumanos. Covardia de quem abandona, vira as costas e se vai sem se preocupar com o coração do outro, tão pulsante e vivo quanto o seu próprio. Covardia de quem se esconde dentro de si mesmo tentando provar a todo custo o que não se é, sendo o que de mais cruel pode ser.
   Eu não quero me acostumar com o medo que me impede de dar passos contra tudo e contra todos. Eu não quero me acostumar com a insegurança de gritar, porque o silêncio descasca aos poucos a minha voz e muda eu nada sou. Eu também não quero me acostumar com a insegurança do silêncio, porque os gritos ensurdecem a mim mesma por vezes.
   Eu só queria ter o costume de ouvir sempre um bom dia dos desconhecidos que eu só posso conhecer quando humanos, de sentir um abraço amigo sempre quando a inquietação de ser gente me bater destrutiva.  Eu só quero me acostumar com os sorrisos meigos e despreocupados de pessoas felizes de verdade pelo simples motivo de acordarem e sentir o sol a iluminar, a chuva a lavar e a lua a clarear o céu escuro.
   Eu só queria ter o costume com a ordem natural dos fatos. A delicadeza e gentileza dos atos. Ao perfume das flores cobrindo toda e qualquer malevolência. Eu só quero me acostumar com o olhar infantil a penetrar-me e depositar em mim o desejo de ser mais: Mais eu mesma; mais humana; mais dócil; mais vigilante com o coração alheio; mais meiga; mais pelos os outros para me sentir felizmente completa. Eu só quero me acostumar com um mundo que eu sei que talvez nunca exista de verdade, mas é o mundo que eu carrego dentro de mim.
   Porque no fim eu sei que, o real sentido da vida estar Nele... Naquele que quando fez o mundo também queria não se acostumar como ele estar agora e ainda guarda a esperança de poder sentir e querer se acostumar com o Amor que já estar escasso em sua essência ÚNICA, um Amor diferente da maioria das coisas que eu vejo hoje, porque o amor que eu vejo é um amor esquecido, esmagado, distorcido...
   Eu quero me acostumar com um Amor que quando existente é paciente, é benigno, um amor que não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece. Não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera; não se ressente do mal. Eu quero me acostumar com um Amor que tudo sofre; tudo crê; tudo espera; tudo suporta...
   Parece utopia para você? Talvez isso aconteça porque você já se acostumou com tudo isso que eu não quero me acostumar, com o desamor mascarado... Mas, no fim, ainda resta a esperança de que a gente aprende a não querer se acostumar. Deus existe, “todos” acreditam nisso, mas são poucos os que se agarram na sua fé e fazem Dela mais do que um simples acomodar-se com as tendências mundiais. Acreditar é, acima de tudo, jamais desistir de si mesmo.