segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Metade

   Não podia! Seria sempre metade de si mesma no espelho. Reflexo torto, inacabado. Havia se entregado demais as pessoas. Havia confiado nelas. Doou-se por inteira e agora é só metade. Metade medo...  Metade coragem. Metade alguém. Doou-se tanto ao ponto de ser roubada, não quiseram devolver a parte doada. Sequestraram sua confiança, seus sonhos. Deixaram com ela uma realidade. E ela é metade.
   Deixou-se ir...  Alma pouco a pouco sendo levada. Ela permitiu um espelho rachado, um coração defasado, um sonho desfeito. Fez-se metade. E chorava...  Lágrimas de partes roubadas. Infinitas perguntas acumuladas, hoje respondidas pela metade.  
   Desfeita. Perdeu-se em suas partes mal feitas. Num lago fundo da futilidade. Perdeu essência, trocou comandos, esqueceu verdades. Ela se fez dúvidas. E caminhou num labirinto de mentiras e vestiu-se delas. E se refez... Mesmo que só metade.
   Armou-se! Vestida de armadura de aço, espada na mão, coração bem guardado. Subiu num dragão e se fez fogo ardente em brasa quente. Misturou-se no âmago da dor. E fez, roubou, gritou. Agora rouba metades, mas as quer como um todo. Metades desfeitas são deficientes a elas mesmas. E como metade, se fez por inteira.

- Água salgada a rolar por montanhas,
 uma a uma,  até descer ácida na garganta!