domingo, 17 de julho de 2011

A menina


   A menina sorria das coisas mais simples e cantava como se o mundo desmoronasse e se erguesse ao mesmo tempo. Trazia consigo um brilho inexplicável, um sentimento inexorável. E junto às flores se fazia mais parecida com ela mesma.
   Dentro do peito um coração a sangrar, na face um sorriso ainda a encantar. Na pele a mesma dança dócil a doar-se aos outros. No âmago de seus medos as lágrimas inflamáveis de cada ferida aberta. São tantas, que antes mesmo de conseguir cicatrizar uma, a menina já se vê com outra ardendo, queimando dolorosamente.
   A quem ela poderia culpar? Seus sorrisos enganavam a todos, por vezes a ela mesma. E seguia, sempre seguiu assim, um passo trêmulo disfarçado, outro forte e corajoso a dissimular. Olhos molhados no escuro; olhos compreensíveis no claro. Ninguém a conhecia por completo, mas, a quem ela poderia culpar? Se depois de machucada ela ainda se fingia inteira?
   Sempre tocou uma melodia doce, mesmo que sua voz por dentro gritasse o ácido nela depositado. A menina dos olhos meigos sentia-se só frequentemente, mesmo que a multidão a cercasse num aperto simultâneo, o aperto de dentro era mais forte e sufocante. A menina dos olhos meigos chorava por dentro as lágrimas que por fora não saíam.
   E ela mentia pra si mesma toda vez que dizia estar bem. Mentia quando dizia que não tem problema e que vai passar. Não estar e nunca esteve tudo bem com ela; e tem problema sim se você a machucar, ela é gente e ela tem um coração que sente dor quando machucado; e não vai passar enquanto ela continuar a mentir pra si mesma.
   A menina sofre porque como menina é frágil e como mulher é ainda menina.