quarta-feira, 6 de julho de 2011

Era tudo o que ela tinha


   Numa casa vazia. Início de manhã, janela fechada, cortinas escuras. Meias largadas, uma cama com muito espaço, travesseiro no chão. O frio era invasor de corpo a tremer, de alma a soluçar. Um guarda-roupa metade vazio. Um chuveiro quebrado, porta-retratos de cabeça para baixo. Uma porta fechada sem ninguém para abrir. Era tudo o que ela tinha.
   Pés descalços desciam as escadas, os únicos a ali deixarem pegadas. Na mesa, duas cadeiras; numa ela sentava, na outra a lembrança se acomodava. Duas xícaras; numa o café caía forte, na outra se despejavam lágrimas. O barulho das gotas insistentes no telhado, o chiar do velho rádio, cada canto da cozinha a invadir a mente e os fantasmas de um passado ainda presente. Era tudo o que ela tinha.
   Olhos inchados a encarar a imensidão da sala; não era tão grande antes. Mãos cruzadas, ela abraçava a si mesma. No estômago o café amargo se mistura a sensação de medo, de dor, angústia. A televisão ligada a preencher com sons vagos o ambiente fúnebre. Dois sofás invadidos de choros e cobertores. Um tapete para se contorcer, descarregar, gritar. Era tudo o que ela tinha.
   Noite escura, céu sem estrelas, lua escondida. Espelho rachado, perfumes quebrados, alma defasada, corpo marcado. Lágrimas incansáveis, soluços intermináveis, medo a corroer. Flores murchas, despetaladas, flores jogadas sobre o enterro de si mesmas. Insônias, gritos ecoando no silêncio. Cartas rasgadas, queimadas, guardadas. Era tudo o que ela tinha, depois que ele a deixou.