quarta-feira, 15 de junho de 2011

Enlaçados


   Você possui uma vida vazia e eu o observo quando estás andando de um lado ao outro sem parar. Eu te vejo sentado no banco da velha praçinha toda noite e meu coração rodopia no peito ao ver sua imagem ali, triste. Mas, é só questão de piedade, eu sei.
   Suas mãos tocam-se umas nas outras, você está ansioso. Seus olhos fitam a lua, e era o que você fazia quando estávamos juntos, hoje ainda faz mesmo sabendo que eu não estarei ali, do seu lado. Mas eu estou te vendo e você não sabe. Eu estou te sentindo enquanto suas lembranças te perseguem.
   Você carrega no peito esse amor orgulhoso que acabou por me empurrar para longe. Mas, eu estou tão perto. Perto demais para tamanha distância interna. Suas mãos firmam-se no livro. Eu não acredito que você está lendo novamente essas palavras tortas. Torturando-se em meus abismos, nas minhas insanidades.
   Larga o livro, desiste de me procurar em linhas inacabadas. Arrepende-se e grita no silencio infernal que você carrega no peito. Encara o livro; aposto que você depositou nele milhares de palavras ácidas. Ah, você não chora. Mergulha a mão ágil no bolso, procura o celular, encara a tela... Desiste.
   Aposto que você se lembra do meu abraço- e eu me lembro de como era forte o seu- e você o queria de novo. Aposto que você lembra-se de meus risos e de como eu voltava a ser menina frágil em seus braços. Aposto que minhas besteiras fazem falta, e que você descobriu que me amava e que agora cada beijo já está distante. Distante de mais de você, de nós dois.
   Pega o celular novamente, digita o número decorado e hesita em apertar o botão verde. Morde os lábios, pensa na saudade e pronto, você me liga. Assusta-se em ver que não caiu na caixa postal como sempre. O celular vibra em meu bolso e agora sou eu quem hesito em apertar o botão verde, mas eu também penso na saudade.
   Segundos de silêncio mortal. Seu coração pulsa rápido e você procura palavras que não existem para induzi-las ao som fonético. Eu não me apresso em dizer nada, nem tentaria. Enfim, você produziu sons nervosos por cordas vocais trêmulas.
   - Eu... Eu não sei o que dizer.
   - Também te amo- respondi, porque eu nunca precisei de uma única palavra sua para ouvir seus sentimentos.
   E seu coração rodopiou nesse instante. Você voltou a olhar o livro e seus lábios desenharam um sorriso. Seus olhos fitaram a lua, os meus também.
   - Sinto sua falta- ele sussurrou.
   - Ela será preenchida.
   E seus braços voltaram a me enlaçar, eu voltei a sorrir... Voltei a ser menina; a sua.