terça-feira, 24 de maio de 2011

Vai

   Desapareça.  Se esvaia na neblina da noite. Vai... Corra de uma vez... Mas, vá logo. 
   Não queira levar nada. Eu não vou deixar. Não faz mais parte de você nada que pertença a mim. Eu sou minha por direito. Leva suas tralhas de uma vez. Seu desamor, seus malditos pensamentos errantes. Coloque de uma vez nessa sua bagagem suas palavras frias, mentiras mal contadas, seu egoísmo. Leve-se daqui. 
   Ei... Mas, me deixe. Deixe minha tristeza e não sinta pena de mim. Deixe minhas palavras, pois não te dou permissão de levá-las; meus sonhos, porque eu tenho o direito de recomeçar; meu amor, pois um dia ele te esquece. Deixe minhas manias, meus defeitos, meus beijos, meus abraços, meus carinhos, minhas roupas, minhas xícaras, minhas lágrimas, meus risos. Deixe-me, mesmo que com um coração partido. Você não o levará com você.
   Pode ir. Garanto que o sol vai aparecer amanhã como antes. Que a chuva que escorrerá na calçada não vai jorrar por fora de mim. Garanto que eu não vou lembrar-me de você quando olhar para a caneca limpa à noite, nem quando o lado direito da cama amanhecer vazio. Garanto que suas piadas não me farão rir quando lembradas, nem chorarei pela falta delas. Então, pode ir...
   Vai... Porque não me resta nada no presente que me faça te pedir pra ficar. Não há sequer uma migalha de amor na qual eu possa me agarrar. E o futuro? Deixa que o futuro fica pra depois, e nele eu me ajeito. Porque, meu amor, você já se foi há muito tempo. E, mesmo que essas minhas palavras sejam mentiras contadas aos meus próprios ouvidos, você pode partir.

-Pauta para o Bloínquês- 71ª Edição Musical.