sexta-feira, 20 de maio de 2011

Os fios de uma máquina chamada coração...

   
   Despejo nesse lixo orgânico os destroços particulares de um coração que se vestiu de aço. Jogo nesse lixo químico todo e qualquer indivíduo que no coração permaneça instalado. Foi-se a sensatez. Obrigaram-me a manter minha voz presa na garganta, como quem nada tem a dizer e por isso se cala. Mas eu queria gritar.
   Com correntes subjacentes a leis tão deficientes, acorrentaram-me as mãos e me levaram. Eu quis fugir, mas as correntes feriram a minha pele. Deixaram-na sangrando nesse lixo tecnológico. Meu coração não precisa de fios para pulsar, mas acho que eles não sabem disso. Pensaram que dentro do meu peito eu carregava uma máquina, e acho que agora, já me convenceram a acreditar nesse espetáculo de baixar a cabeça e esquecer-me de uma voz presa na garganta.
   Quiseram fechar os meus olhos, acho que apertaram o botão errado, e eu fiquei fora de ar. Esqueceram de posicionar minha antena parabólica corretamente. Os únicos canais que agora apresento são os de raiva, dor e remoço. Mexeram nos fios errados, desconectaram meu bom-senso.
   Digitaram-me num texto cheio de regras, e eu me fiz sujeito sem verbo. Pulei vírgulas e cheguei a um ponto final. E ali fiquei. Mas me infiltraram numa interrogação medíocre, me posicionaram na corda bamba da chantagem, mas se esqueceram de que meu sistema estava com defeito. Eu disse um não.
   Uma troca de fios com mãos ágeis. Manipulavam-me. Trouxeram chaves de fenda, óleo, um novo fusível, lubrificante, e implantaram um novo coração, mais fios...