quinta-feira, 14 de abril de 2011

Destroços de um coração em (re)construção


Meus passos eram lentos. E permaneciam nessa velocidade retardada porque eu não sabia ao certo se deveria continuar andando. Ele havia ficado para trás e eu não conseguia olhá-lo e ver sua reação depois de minhas palavras tão frias, mas tão sinceras. E eu mantinha meus pés em movimento, aos poucos eles me levavam para mais longe.
-Espere- ele gritou com uma voz que saiu um tanto falha.
Paralisei-me no mesmo lugar, no mesmo instante. As mãos suavam. Não ousei em virar-me. Alguns breves segundos se seguiram naquela cena que eu nem posso descrever direito. O que posso dizer é que meu coração sofreu reações estranhas naquele momento. Ele confundiu-se em três sentimentos distintos: Medo, amor, dúvidas. Sei, meu coração carrega contradições de um passado que vive ainda presente. O homem ali na minha frente em nada era culpado, mais eu também não podia deixá-lo sujeito as minhas deficiências.
Segurou com força por detrás de meu braço. Parecia ainda não compreender todas as palavras que eu havia despejado em seus ouvidos minutos antes. Obrigou-me a virar-me. Meus olhos tímidos fitavam o chão, eu não suportaria ver sua expressão de dor, mas eu já a sentia dilacerar-me por dentro.
-Porque não esquece seu passado?- ele sugeriu quase implorando- porque não me deixa te amar? Porque não tenta fazer o mesmo? Deixa-me te fazer esquecer ele? Porque não tentar?
-Porque eu posso ser muito mais que isso- eu disse encarando-o nos olhos agora- Porque eu quero ser pra você mais que os destroços do que um dia eu fui. Porque eu quero ser pra você o que eu realmente sou de melhor. Não me queira desfeita, ninguém vive de pedaços e é o que sou agora, restos. Eu não tento, porque eu quero ser pra você mais do que uma simples tentativa. Eu quero ser pra você a conclusão, o que deu certo. Quero ser suas razões, mesmo insanas. Mas pra ser razão é necessário ser emoção primeiro, nenhum amor vive de lógica. Eu quero ser pra você tudo o que você pode ser pra mim, porque você é inteiro, mas eu não.
Por alguns segundos nossos olhos trocaram carícias e compreensões. E as mãos deles que antes apertavam meu braço, foram deslizando para minhas costas, num abraço de amor em construção, de coração em reconstrução. Uma lágrima escorreu lenta por sobre minha face. No fundo meu coração o queria mais que tudo, mas um coração em pedaços não pode ser entregue, como quem entrega pedaços do que um dia foi um jarro de cristal.
- Sou um bom pedreiro sabia- ele disse sorrindo e me surpreendendo- vou reconstruir seu coração, e assim você irá me entregá-lo e eu jamais o deixarei ter os alicerces destruídos. E aí você vai ser pra mim tudo o que eu já sou pra você.

Pauta para o Bloínquês- 64ª Edição Musical.