quarta-feira, 9 de março de 2011

Faltava um pedaço


Abriu os olhos vagarosamente. Embora com as pálpebras já abertas, ainda não tinha realmente acordado. Sentia o gosto amargo na boca, gosto de arrependimento. Havia dois dias que tinha brigado com o pai. O jeito protetor dele machucava-a às vezes e acabavam sempre brigando. Mas, dessa vez, foi diferente: ela viu que eram definitivas as palavras que ele pronunciou com olhos sérios. Olhos de ponto final.
Obrigou o corpo a levantar-se. O coração apertado, de uma forma que ela nunca tinha sentido antes, parecia querer correr. Seu coração queria correr ao encontro de seu pai, pedir desculpas. Mas o orgulho não deixava suas pernas se moverem.
Desceu até a cozinha para preparar o café. Tudo fazia com que ela se lembrasse dele. De como ele preparava o café assobiando. Aquele café amargo, que ela sempre reclamava. Podia sentir até o cheiro que emanava dele, quando o abraçava bem forte.
O telefone tocou arrancando-a de seus pensamentos. Atendeu com a esperança de que fosse ele. Mas, no fundo, sabia que tinha puxado dele o seu próprio orgulho.
-Alô- Atendeu esperançosa.
-Senhorita Letícia Prado de Santana?- Disse uma voz desconhecida.
-É ela. O que deseja?- Perguntou curiosa e nervosa ao mesmo tempo.
-Aqui quem fala é Pedro Soares, do hospital Renascer. Seu pai sofreu uma parada cardíaca. Encontra-se internado em estado grave.
O telefone escorregou de suas mãos nesse instante. Seus olhos fitavam o nada. Suas pernas tremiam. Um filme de lembranças passava em sua cabeça. Lembrava dos abraços apertados, das histórias para dormir, de como corria à noite para o quarto dele quando sentia medo, de seu sorriso orgulhoso quando ela fazia algum avanço bobo, de tudo.
Depois de alguns minutos, extasiada naquelas lembranças, no medo que agora sentia, seu orgulho tinha sumido e suas pernas corriam em direção ao carro.
Mal conseguia colocar a chave. As primeiras lágrimas escorregavam por sua face. Acelerou e seria presa se pega na velocidade ultrapassada. Ela não estava consciente disso. A pessoa que ela mais ama está numa cama, à beira da morte.
Chegou aos prantos no hospital. Mal conseguia perguntar o quarto onde o pai estava. Correu para lá assim que descobriu. Deparou-se com aquele homem que tanto te ensinou. Pele pálida e frágil do tempo, qua agora o castigava. Olhos tristes a encaravam. Olhos de medo também. Aproximou-se.
-Pai- disse entre os soluços, apertando aquela velha mão cálida. Mãos que já lhes fizeram muito carinho quando criança- Me desculpa meu velho pai, eu não deveria ter dito aquelas palavras ao senhor. Fui tão errada!
O homem fingia-se distraído, mas ouvia o que ela dizia.
-O senhor é a pessoa mais importante que eu tenho nesse mundo. Meu escudo.
-Achei que eu fosse um inútil- ele disse finalmente e uma lágrima escorreu pelos seus olhos- Achei que eu fosse um velho imprestável e que só servia para te dar trabalho.
Essas palavras a acertavam ferozes e ácidas.
-Não- ela mal conseguia falar- nunca foi. O senhor sempre foi a única pessoa que sempre esteve ao meu lado, que me ensinou tudo o que hoje sei. Que construiu toda a minha personalidade. E que por isso é tão parecida com a sua. Meu velho e querido pai.
-Minha filha- o homem falava lentamente- eu nunca te disse, mas depois que sua mãe se foi, a única pessoa que me restou foi você. Você é a coisa mais preciosa que esse velho aqui tem. Todas as vezes que fui rude, não foi para machucá-la e sim para protegê-la. Hoje estou velho, frágil. Não posso mais proteger você, me desculpa minha filha, não posso mais estar ao seu lado.
-Papai, a única pessoa que tem que pedir perdão sou eu. Perdoe-me por todas as palavras mal pensadas. Eu te amo muito, papai.
-Eu também- saiu num sussurro.
O coração daquele velho homem havia parado. O dela batia lento e rápido ao mesmo tempo. Batia despedaçado, faltava um pedaço agora. Um pedaço que havia parado, junto com o coração do velho pai.


Pauta para o Bloínquês- 57ª Edição Conto-história.

Sim, estou viciada no Bloínquês. Mas, sinceramente não é proposital. Eu falo a mim mesma: Você só vai participar de uma edição por semana, duas no máximo. Mas a inspiração me agarra, coloca uma arma em minha cabeça e diz: Ou você participa, ou eu te abandono. Haha. Aí eu participo né? Contradizer inspiração não dá sorte. Obrigada à vocês meus amigos, que sempre leem esses meus gritos e que gritam também.