sábado, 19 de fevereiro de 2011

O caminho era o mesmo, ela não mais. Parte II




     Voltou pedalando aceleradamente pra casa, as lágrimas banhavam todo seu rosto e salgava por vezes sua boca, soluçava mais forte cada vez que se lembrava das palavras que ouvira vindas dele, cada vez que se lembrava dele e que não pertencia mais a ele. Quase caiu da bicicleta por duas vezes, mas ela nem estava se importando se um carro passasse por cima dela agora, embora não houvesse movimentação de outro veículo á não serem as bicicletas vizinhas, seria um alívio.
     Chegou em casa, jogou a bicicleta com força pra longe dela. Correu pro quarto antes que alguém a visse naquele estado. Caiu na cama, abraçou os joelhos, chorou. Olha pra cabeceira da cama, lá estavam suas lembranças congeladas em fotografias. A felicidade ali revelada parecia falsa diante das lágrimas já secas em seu rosto agora.
     Ela se perguntava como era possível que três anos e meio parecessem nada, já que agora ela não o tinha mais. Não, ela não podia se conformar com essa condição que ele impôs a sua vida. Ela não podia deixar que ele a deixasse assim, congelada em lembranças.
Pegou o celular, do outro lado da linha uma voz que não era a esperada fala: ”O número chamado não existe, por favor, verifique o número discado e tente novamente”.
     -Como assim? É claro que o número está correto- murmurou pra si mesma.
     Tentou inúmeras vezes mais. De repente é como se ele estivesse sumindo de seu alcance, é como se ele nem existisse mais, como se tudo tivesse sido um sonho de três anos e meio. Ela não poderia suportar isso!
     No dia seguinte, mesmo com o céu carregado de nuvens, pegou sua bicicleta e saiu pelo mesmo caminho, em cada detalhe uma lembrança depositada, de gosto amargo e doce no mesmo sabor. Ela se esforçava para não se lembrar de nada, pra que suas lágrimas ficassem guardadas só pra ela.
     Chegou diante da velha casa, respirou fundo criando coragem pra entrar. Confusa, não sabia se devia bater na porta ou simplesmente adentrar, como se fosse da família. Mas então chamou, pois já não pertencia aquele lugar. Não depois do adeus.
     Chamou, chamou e ninguém atendeu. Tentou abrir a porta, mas estava trancada. Um senhor que ia caminhando devagar, apoiando-se em sua bengala, foi quem gritou:
     - Não há mais ninguém aí! Acabaram de se mudar.
     Demorou um pouco, pra seus sentidos processarem essa informação.
     - Como?- foi a única palavra que saiu de sua boca trêmula. E depois continuou- O senhor tem certeza?
     - Sim, tenho.
     - Pra onde foram?- perguntou decidida a ir aonde quer que eles estejam.
     - Não sei, mas acho que pra longe, muito longe- disse o senhor já saindo.
     Essa última frase veio como um tiro certeiro em seu coração. Ela ficou extasiada no mesmo lugar. A primeira lágrima já descia silenciosa pelo canto do olho. E as primeiras gotas do céu faziam companhia a ela. De repente, tomada por um surto de desespero, começa a bater desesperadamente na porta. Ela grita o nome dele sem parar. A chuva já forte se mistura com as lágrimas que descem gritantes.
    Desistindo de bater na porta, deita-se na lama, rendendo-se ao medo de perdê-lo pra sempre. Seu vestido branco, agora todo sujo e transparente, causava-lhe repulsa, por ter sido um presente dele.
    E a chuva lava seu corpo, mas não leva as lembranças!