domingo, 27 de fevereiro de 2011

Cicatriz


   
   Estava sentada num banco solitário num jardim pouco frequentado. Abraçava os joelhos. Abraçava a sua mágoa. A única dor que possuía agora era essa, a da cicatriz. Já se sentia curada, a dolorida ferida já não incomodava mais, mas as marcas continuavam lá. Existiam tão somente para fragilizá-la.
   Encarava o horizonte, imaginava o infinito. O sol já se despedia dela. Queria se perder naquelas linhas paralelas, mesmo que só imaginárias. Queria levar-se para longe desse lugar que em nada a deixava esquecer. A ferida não estava mais aberta, mas mesmo fechada o vazio havia ficado do lado de dentro.
   Ela sentiu nesse momento duas mãos gélidas a acariciar seu pescoço e ombros. Pulou num sobressalto.  Encarou aqueles olhos frios penetrarem sua alma e perfurarem novamente a cicatriz. A ferida começava a sangrar. Ela não podia permitir isso novamente.
   -O que você está fazendo aqui?- perguntou disfarçando o medo em raiva.
   -Sabia que te encontraria nesse lugar. Você sempre vem aqui quando se sente só.
   Ele ia se aproximando, ela se afastava com passos lentos para trás. Tentando evitar o contato. Tentando estancar o sangue que teimava em escorrer.
   -Vá embora- ela disse agora frígida.
   -Eu vim te buscar. Volta pra mim?- A expressão dele era de frieza, de reconquistar a presa que havia escapado.
   -Eu te dei tudo o que eu tinha. Eu me entreguei a você com todas as forças que meu coração possuía e ele agora está fraco. Eu confiei em suas promessas e elas me fizeram sangrar. E enquanto eu derramava minhas lágrimas cobertas de dores inflamáveis, você apenas sorria. Seus olhos deliciavam-se a cada momento de fraqueza que eu demonstrava. E mesmo assim eu deixava minha ferida aberta, para você ter a indócil gentileza de machucá-la mais.
   -Como pode pensar assim- o som sínico percorria a voz daquele que defasava sua alma- Eu te amo.
   -E onde você estava quando a dor me invadia cada veia? Onde você estava quando minhas lágrimas desciam voraz por minha face? Onde você andava quando meus olhos ficavam vidrados na porta a espera de sua presença? Onde você andava quando eu tinha que me agarrar á promessas para me manter viva?
   -Eu sempre estive ao seu lado!- ele gritou.
   -Mas o seu coração não.
   Então ela virou e começou a andar em direção ao horizonte. A mão na ferida que agora ardia. Demoraria algum tempo para cicatrizar-se novamente. Mas ela sabia que uma ferida fechada era mais fácil de esquecer, do que estando aberta e sangrando.

Pauta para o Bloínquês-58ª Edição Musical.



Eu sei! As palavras são fortes e até mesmo exageradas, mas eu não as escolho, são elas que me escolhem.  Não pedem permissão, apenas chegam e pulam para fora. São assim que as estórias surgem, elas pulam da gente.Transbordam sentimento, provocam emoções. Ás vezes assustam, outras vezes encantam. Agradeço desde já o carinho de todos!