sexta-feira, 10 de junho de 2011

Prazer, eu me chamo vingança.


   Ele encara o teto com seus olhos profundos. Revela um mistério íntimo para a lua, que entra tímida pela janela. Sua expressão é vazia e por detrás do vazio não sei se há medo ou culpa. Mas, meu amor, se for culpa você já não mais a sentirá.
   Seus dedos tocavam uma canção oculta no chão amadeirado. Deitado nesse cômodo vazio, você abraça novamente a solidão. Lembro que você me disse certa vez que a melodia solipsa é a mais fácil de ser tocada e a mais dolorida de ser ouvida. E sim, você tem razão...
   Baixei a máscara para o rosto. Batom vermelho na boca, que ele induza sangue. Puxei o zíper da bota preta, que ela induza a dor. Dei passos fortes e eles tilintavam com o barulho da madeira, que isso induza medo.
   Entrei armada, com uma 38 que eu guardo no peito, do lado esquerdo. Com a língua coçando pra puxar o gatilho. De repente seus olhos não fitavam mais o teto, eles viraram-se surpresos e um tanto assustados para mim.  Eu havia invadido seu cômodo vazio e solipso sem bater na porta.
   Ele abriu a boca, queria falar, mas calou-se. Ficamos alguns minutos a encarar o espaço entre a gente. Eu sou uma desconhecida mascarada e ele... Bem, ele é um desconhecido atrevido. Continuei a me aproximar com passos lentos e ele estuda cada gesto meu. Jamais me reconhecerá com tais observações, pois me vesti com outro personagem.
   Encostei. Meus passos agora forçavam os dele para trás, eu encostei-o na parede.
   - Quem é você?- ele perguntou finalmente.
   O beijei. Sim, eu agora havia saciado minha sede de retorno. E quem foi que disse que a vingança é um prato que se come frio? A minha se consome no calor de um beijo. Um beijo roubado que agora é devolvido.
   -Prazer, eu me chamo vingança.