sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

O caminho era o mesmo, ela não mais. Parte III


 
 
     Foi retirada daquele lugar sujo por seu irmão mais velho, que quase não acreditou ser ela naquela situação degradante. O caminho era longo, mas mesmo assim a pegou nos braços e a levou para casa. Procurou uma forma de que ninguém a visse, porque sabia a confusão que aquilo ia dar e também por ser um irmão super protetor e brincalhão.
     -O que aconteceu?- ele a perguntou confuso.
     -Nada- respondeu com olhos tristes.
     -Não se chora por nada. Não se deita na lama em uma tempestade por nada. E por falar nisso, onde estava o seu namorado naquele momento que a deixou na chuva?
     Nesse momento ela começou a desabar em choro novamente. Correu pro banheiro. Debaixo da água fria do chuveiro ela deixava todo seu corpo adormecer, ela só queria esquecer. Esquecer os últimos três anos e meios de sua vida. Esquecê-lo. Não imaginava que essa seria a tarefa mais árdua que ela iria enfrentar.
     Já mais tarde, os primeiros sintomas de seu resfriado começavam a aparecer. Enfiada em cobertas quentes, o frio ainda penetrava seu corpo. Vez em quando sentia aquele ardor descer pelo rosto, ela já havia se acostumado. Nesse momento, seu irmão entra com um copo de chocolate quente para ela.
     -Você é o melhor irmão do mundo sabia- ela disse com um sorriso triste.
     -Sabia- ele disse super convencido.
     -O dever de um irmão mais velho é nos ensinar as coisas a qual ainda não aprendemos. Não é?- ela perguntou.
     -Sim, esse é o dever do irmão mais velho- ele disse passando a mão em seu rosto dócil.
     -Então me ensina a esquecer?
Ele não achou resposta para essa pergunta, no fundo sabia que esquecer não era uma tarefa fácil, e causava muita dor. Dor essa que só ela poderia curar. Então a abraçou, porque isso sim ele podia fazer. Podia estar com ela enquanto ela lutava para esquecer.
     Os dias passavam arrastando-se. Ela segurava mais forte seu coração a cada dia, para que o sangue parasse de jorrar, mas ele sempre escapava por entre seus dedos, e isso doía como ferro quente na pele. Não sentia mais fome e por isso estava pálida nesses últimos dias.
     Hoje se sentia tonta, então subiu as escadas, queria se trancar em seu mundinho. A visão escapava-se pra longe. Ela sentiu o chão duro bater em suas costas. Como sempre seu irmão a socorreu aos gritos. Levaram-na para o hospital de outra cidade, já que nessa cidadezinha não havia um.
     Foi medicada, nada grave a atingia, não por fora. Estava apenas com uma leve anemia, falta dos alimentos que ela ultimamente não conseguia mais ingerir. Enquanto sua mãe e seu irmão conversavam com o médico, ela começou a andar pelos corredores.
     Sentiu um baque em seu coração ao ouvir uma voz bastante familiar na sala ao lado. Aproximou-se apreensiva. Sim, era ele. Sua respiração ficou ofegante, sentiu ela faltar por vezes.
     -Infelizmente esse tipo de coisa inadmissível ainda acontece em muitos hospitais por aí- ela ouvia o médico dizer atrás da janela de vidro- Total imprudência é o que atinge pessoas através de seringas contaminadas pelo vírus da AIDS. 
     Ela paralisou-se nesse instante. Sentiu o chão sumir diante de seus pés.
     -Devia ter me contado- ela entrou aos gritos e lágrimas dentro da sala. Ele se assustou, ficou pálido.
     -O que você está fazendo aqui?- ele perguntou trêmulo, mas nem esperou resposta, saiu pela sala correndo. Ela correu atrás dele. Já fora do hospital, ele parou, virou-se e gritou:
     -Você não entende? Não pode chegar perto.
     Ao mesmo tempo em que ela avançava lentamente, ele retrocedia também.
     -Não pode fugir de mim!- ela gritou chorando.
     -Não estou fugindo, estou te protegendo. Você não vê que é perigoso chegar perto? Não quero ver você... - ela o interrompeu.
     -Então não me proteja, deixa que eu cuido de mim.
     -Não posso fazer isso. Sinto muito.
     -Por favor?- ela disse. Ele parou, ela avançou lentamente- está tudo bem, não vai acontecer nada. Só me abraça- ela disse.
Chegou mais perto, ele hesitou por um instante, depois a abraçou bem forte. Os dois choravam. Ela quis beijá-lo ele a afastou.
     -Não tem problema ela disse.
     Então se beijaram, mas aquela doença ainda estava entre eles e permaneceria pra sempre. 




Esse não é o ponto final da "estória". Personagens também vivem quando não há um ponto final. Vivem dentro de cada um que leu essas linhas e que agora imaginam a continuação que não será posta em palavras. Essa "estória" será escrita agora da forma que vocês pensarem melhor ser. Só peço humildemente que cuidem bem dos meus personagens. Agradecendo sempre a paciência, dedicação e os gritos silenciosos de todos!